Domingo, 5 de Julho de 2009

Em directo

O regresso de Zelaya e a repressão do exército das Honduras, aqui.

lemniscata


O blog O Valor das Ideias, da autoria de Carlos Santos atribuiu o prémio Lemniscata a este blog.

“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores."

Sobre o significado de LEMNISCATA:LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.”Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores(In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora)

Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.Texto da editora de “Pérola da cultura”Seguindo as regras este prémio é para ser atribuído de seguida a 7 blogues. Assim, sem qualquer ordem prévia:

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Taxa do carbono na Suécia


Em 1991 entrou em vigor na Suécia uma taxa de carbono sobre o consumo de energia a partir de combustíveis fósseis.
A taxa, que inicialmente se situava nos 27€/ton, actualmente é de 108€/ton, um valor bem mais elevado do que os valores das licenças de emissão do mercado de carbono europeu.

Os fim de quase 20 anos os resultados são:

Redução das emissões em 9%;
Cada Sueco emite em média 6,7 ton de CO2 anualmente contra 9,3 ton da média europeia;
Transição do uso de combustíveis fósseis para energias renováveis ou biomassa quer na indústria, quer na habitação;
O Estado Sueco arrecada todos os anos cerca de 1,4 milhares de euros a partir da aplicação da taxa.

O mercado de emissões europeu não conseguiu sequer cumprir as metas de Quioto, ao mesmo tempo que gerou um negócio multimilionário para grandes empresas.
As diferenças são evidentes.

Ver mais aqui.

Conferência de David Throsby - ISCTE

Este texto é da autoria de Joana Mayer

Seminário integrado no Ciclo de Conferências “Artistas e Profissionais da Cultura: Carreiras e Mercados de Trabalho”

O teórico australiano David Throsby esteve ontem no ISCTE para um seminário no âmbito do ciclo de Conferências “Artistas e Profissionais da Cultura: Carreiras e Mercados de Trabalho”, promovidas pelo Dinâmia em conjunto com o ICS (David Throsby é um dos teóricos que mais tem reflectido sobre as especificidades da relação entre a economia e a cultura nas suas várias dimensões pragmáticas. O seu trabalho de investigação tem contemplado questões como a importância dos artistas na economia, a economia de intervenção pública nos mercados artísticos, o desenvolvimento cultural, a política cultural e a sustentabilidade dos processos culturais).

Neste seminário Throsby apresentou uma comunicação onde pretende questionar simultaneamente: a) se existe um nível de rendimento mínimo apontado pelos artistas que determina o investimento de tempo em actividades criativas; e b) quais as variáveis que contribuem para a estipulação deste rendimento mínimo, e se estas influenciam os artistas a optarem por actividades menos criativas mas mais lucrativas. Estas questões surgem na sequência das observações apresentadas por Throsby no artigo “Preferred Work Patterns of Creative Artists”, publicado no Journal of Economics and Finance (2007).

Neste artigo, Throsby conclui que o modelo económico de trabalho para os artistas é diferente do modelo convencional de oferta de trabalho. O modelo económico da oferta de trabalho considera um mercado onde se transacciona trabalho, i.e. onde há uma oferta e uma procura de mão-de-obra, e, este modelo explica ou ajuda a explicar a forma como os fornecedores de trabalho se comportam no mercado.

Assim, quando consideramos o trabalho artístico observamos que não existe uma diferença expressiva entre o tempo investido em “trabalho criativo” e aquele que estes gostariam de investir em tempo de lazer. Ou seja, por oposição ao trabalhador comum, que investe o seu tempo a trabalhar - em função de uma expectativa de rendimento - , e que consequentemente compromete assim o tempo que gostava de investir em lazer, para o artista não existe um desfasamento tão expressivo entre o tempo que dedica ao trabalho criativo e aquele que gostaria de dedicar a fazer outras coisas.

Esta diferença pressupõe então que os artistas gostavam de poder investir mais tempo no trabalho criativo, mas que a proporção da expectativa de rendimentos não acompanha esta curva ascendente. Daqui se conclui que os constrangimentos associados ao retorno do trabalho criativo obriga os artistas a tomarem opções que comprometem o tempo de que dispõem para investir nas suas actividades criativas - arranjando um emprego não-criativo ou optando por um emprego criativo mas de carácter secundário (dar aulas de música, por exemplo).

Deste modo, a referência de um rendimento mínimo apontado pelos artistas permite concluir do limiar abaixo do qual o tempo despendido em actividades criativas se torna uma quase impossibilidade. Quanto ao valor do rendimento mínimo apontado este estabelece-se principalmente com base no rendimento auferido pelos artistas à data do inquérito. As outras variáveis que podem fazer oscilar este valor prendem-se fundamentalmente com o estado civil e com o número de filhos (ainda que variáveis como a idade sejam também de considerar).

Estas conclusões são interessantes fundamentalmente por dois motivos: por um lado porque permitem voltar a desfazer o mito do artista romântico cuja pobreza é o motor do espírito criativo; e, por outro lado, porque fornecem dados interessantes sobre valores concretos e variáveis que condicionam o trabalho artístico, implicando consequentemente uma reflexão ao nível das políticas culturais sobre os financiamentos e a regulação (ou não) dos mercados.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

É isto o PS




É esta a resposta que o PS dá quando lhe fazem perguntas incómodas.

Encontros com o Presidente

Hoje o António Costa, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, promove um encontro informal com bloggers e utilizadores das redes sociais (Twitters, Facebooks, etc). É às 18 h na Sala do Arquivo, nos Paços do Concelho.
Julgo ser a primeira iniciativa deste género pela parte de um Presidente de Câmara, em Portugal, o que aumenta o nível do seu significado e reforça a ideia da governação «para as pessoas» promovida pelo António Costa em Lisboa.
É ainda um sinal de que as redes sociais já entraram, definitivamente, na arena política, agora com uma maturidade e significância bem mais premente que em anos anteriores. Esse facto tem sido muito visível nas recentes campanhas eleitorais (pelo menos desde a última presidencial), mas ainda não tinha atingido, de forma consistente, as cúpulas institucionais. E o facto de ser o Presidente da CML a promover o encontro, e não o candidato, significa que as redes sociais alcançaram a sua maioridade e que são hoje tratadas com a dignidade que a sua relevância merece. Finalmente.
Eu estarei por lá, a twittar e a blogar.

Jerónimo Martins destrói os oceanos


A Greenpeace está a bloquear a sede da Jerónimo Martins no Campo Grande.

Os activistas exigem que a Jerónimo Martins se comprometa a:
  • subscrever 5 princípios de uma política sustentável de compra e venda de peixe. Entre eles, o suspender a venda de espécies de peixe ameçadas, apoiar a comercialização das espécies mais sustentáveis, melhorar a rastreabilidade e etiquetagem dos produtos, promover e implementar prácticas sustentáveis.
  • do retirar imediato das prateleiras de 3 espécies da Lista Vermelha de Peixes da Greenpeace;
  • do compromisso em rever todas as espécies de peixe que comercializa, de acordo com os princípios adoptados para uma política sustentável de compra e venda de peixe sustentável, até meados de 2010.

Ver mais aqui, acompanhar no twitter e consultar o ranking de práticas ambientais dos supermercados elaborado pela Greenpeace.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Já agora, o criacionismo


“Em todo o país, no maior número possível de escolas, queremos que os pais não autorizem os filhos a frequentar as aulas de educação sexual."

É uma plataforma de pais "preocupados" com a obrigatoriedade das aulas de Educação Sexual. Pais que alegadamente promovem a educação sexual dos filhos "desde o seu nascimento, de um modo natural, integrado, progressivo, completo e respeitando as exigências das suas necessidades concretas, do seu crescimento e da sua dignidade pessoal". O modo natural de não falar das coisas abertamente, o modo natural de achar que sexualidade é procriação e que o homem é para a mulher - naturalmente.

A educação sexual deve ser obrigatória e leccionada por profissionais competentes precisamente porque há muitos pais (e mesmo professores) que muitas vezes deseducam mais do que educam. E porque as crianças têm direito a receber toda a informação e a discutir todas as questões que tiverem de forma livre, descomprometida e independente das crenças ou dos tabus dos pais.

E se houver pais a pedir que os filhos não estudem Darwin? Ou a Ilha dos Amores? Ou o Brecht?

Failed States?

It would be laughable anywhere else. But, so everyone says, the Waxman-Markey bill which is likely to be passed in Congress today or tomorrow, is the best we can expect – from America.




Vale também a pena ler o artigo da Suzanne Goldenberg no Guardian sobre as resistências do congresso norte-americano à diminuição das emissões de gases com efeito de estufa.

Onde pára a democracia?



Via Arrastão.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

A nova obsessão do PSD


uma instalação de Juan Muñoz no Rainha Sofia Madrid

Desafio os leitores a adivinharem o título.


Memória, autarquias e recrutamento político

Vejo no 31 da Armada que o Carlos Nunes Lopes se indigna com o facto de a Gebalis ter admitido 6 (seis) novos funcionários na Gebalis. Seis. Não foram sessenta, nem seiscentos; mas seis. Eu ainda me recordo da gestão camarária do PSD de Santana-Carmona, e lembro-me bem do centro de emprego que era a CML para os boys laranjinhas. Estranho o Carlos Nunes Lopes não ter por lá passado, tantos foram os felizes contemplados.
Claro que a indignação do Carlos se refere ao facto de todos os seis (repito, seis), serem do Partido Socialista, o que pressupõe que militantes socialistas não podem ter valências, características ou méritos que lhes permitam serem contratados por entidades públicas. Outro erro.
O que o Carlos decerto quereria fazer notar é a facilidade com que as nomeações políticas se fazem neste país, com os principais partidos a tomarem – ciclicamente – conta de partes do aparelho do Estado. Aparte da reflexão acerca dessa necessidade, que permite a implementação mais facilitada das políticas públicas, a verdade é que essa rotina já foi mais visível. Hoje, apesar de ainda existir, está bem mais controlada, e só quem tem vista curta ou memória fraca pode atacar o PS na CML de favorecer «os seus». Bem sei que há quem queira esquecer a governação Santana – Carmona a todo o custo; mas há também quem não a esqueça (e sinceramente é preciso ter vergonha na cara pensar que se esquece tudo com tanta facilidade).

Domingo, 28 de Junho de 2009

Madrid - cidade, lugares e vida

Os patos passaram pela primeira vez por Madrid. Os lugares desta cidade valem a pena ser descobertos de dia e de noite, de Masselha e a praça 2 de Maio com os festejos do São João (sim, não é só no Porto), a visitar o PhotoEspaña09 comissariado por Sérgio Mah no Instituto Cervantes, na Galeria 31, na Fundación Telefónica ou no Círculo de Bellas Artes (só para mencionar os locais próximos da Grand Vía), onde se encontra trabalhos de Gerhard Richter, Liebovitz, Faigenbaum, Pedro Costa, bem como uma nova geração que se apresentou sobre o tema Resiliencia dos quais destaco Tomás Munita, que apresenta a vida dos apanhadores de guano numa ilha perdida e em condições de vida julgaríamos nós encenadas apenas para a fotografia; o trabalho de Morfi Jiménez Mer, retratos das pessoas de uma aldeia da América Latina que nos mostra que os cem anos de solidão existem para certas pessoas; e Pavka Segura, que traz um lugar da cidade do México para o centro de Madrid, uma sala de uma família e todos os pormenores culturais de identificação (fotografias em baixo).



Em Madrid a rua é vivida e o jardim é usado e pisado sem restrições para brincar, trabalhar, passear, estar e dormir a sesta sobre a relva. O passeio na Fuencarral e a sesta no Retiro faz-se em grupo, de amigos, família e de desconhecidos a viver o mesmo sítio seja por que razões for, mas sem restrições sociais. A curta-metragem Outside, de Sérgio Cruz, apresentado no Indie 2008, mostra também como num túnel de acesso ao metro de Pequim, sem qualquer plano prévio as pessoas se juntam voluntariamente em pequenos coros e cantam e dançam porque estão no espaço público. Esta capacidade e disponibilidade de viver os espaços é algo de particular a cada cidade mas acho que é algo que é particularmente necessário promover em Lisboa.
Ainda em Madrid, de dia e de noite visitámos os bairros de Lavapiés, Masselha e Chueca. O primeiro é local de encontro de diferentes etnias e culturas, prédios que mantêm as características do século XIX e no rés-do-chão, porta sim porta sim nos oferece diversidade, escolha e riqueza cultural (a Maria José Nogueira Pinto devia olhar para este bairro). Ao lado de um bar de 1888 existe um Doner Kebab, seguido de um clube de vídeos Bollywood, seguido de um Ding la Import Export, de uma Cervejaria sin pecado, seguido de uma praceta junto à Calle del Ave Maria com famílias inteiras nos bancos e nas esplanadas à uma da manhã de quarta-feira e um teatro a anunciar programação para o dia seguinte. E isto é um bairro social de Madrid.


A Chueca é um bairro com uma movida extraordinária, centenas de bares e discotecas com milhares de pessoas na rua, algo parecido com o Bairro Alto de Lisboa, mas é também o centro e catalisador de uma força política de afirmação do orgulho Gay e Lésbico que talvez seja o que falta a Lisboa e que o Bairro ainda não é.
O mercado de San Miguel, junto à Calle Mayor, é um dos melhores locais de prazer gastronómico de Madrid. Aproveitando as fundações do antigo mercado, abandonado à anos, foi agora renovado com mesas no centro e quiosques de vinhos, queijos, carnes, peixes e livros nas laterais, de forma a cada pessoa ir buscando o que lhe apetecer.
Ainda em Madrid é importante passar pelo Museu Thyssen, que apesar de uma horrenda cor salmão em todas as paredes tem uma boa colecção de pintura do séx. XIX e XX. A baronesa Thyssen ofereceu parte da sua colecção privada ao Museu e tem por isso um quadro com o seu retrato na entrada do edifício. Aconselho todos os que visitarem o museu a verem esta pérola de gosto extraordinário na verdadeira acepção da palavra.
O Museu Rainha Sofia é um espaço pouco humano para visitar mas a colecção é essencial, além dos Picassos, Dalis e Magrittes, apresenta ainda várias salas de pintura desde o pós-guerra até ao século XXI com sentido curatorial pedagógico que tenta escapar a uma visão cronológica e redutora da arte. Destaco ainda a exposição de Juan Muñoz, que já passou por Portugal (se não me engano pelo Berardo e Serralves) mas que é sempre diferente nos espaços em que se insere.

Clubismo Partidário ou uma reflexão sobre Identidade em Política.

Amanhã vai sair um novo cartaz do António Costa e da candidatura Unir Lisboa. O mesmo, que pode ver neste post, é em tons de verde. Não me parece mal a cor (apesar do meu benfiquismo), que procura absorver o conceito plural do alfacinha lisboeta (daí a cor verde alface), nem me parece uma má ideia do ponto de vista político e do marketing. Se por um lado procura apresentar António Costa como um líder para toda a cidade; por outro, procura lembrar o carácter trans-partidário da sua candidatura, facto manifestado pela elevada quantidade de independentes da sua lista de 2007 (que se espera que se repita em Outubro). Essa é uma marca da candidatura Unir Lisboa, que agora se procura valorizar.
No entanto, não posso deixar de estranhar a volatilidade identitária que se tem verificado na forma de comunicar da política contemporânea, que reflecte como se aprecia a ideia de identidade Política. Antigamente as cores eram fixas e tinham uma importante representação simbólica. O vermelho representava o trabalhismo, a social-democracia, o socialismo e os vários comunismos. O azul a democracia cristã. O Amarelo os liberais e o Verdes… os verdes. Quando vemos que muitos partidos e forças políticas mantem as suas cores, a verdade é que o PS se foi afastando da sua. Fê-lo por razões de deslocamento ideológico e de penetração no mercado eleitoral centrista (que tinha – e ainda tem – receio de demonstrações demasiado rubras), Fê-lo por questões de procura de espaço simbólico (excessiva concorrência nos vermelhos – o Bloco também o fez, correndo para os roxos). Inicialmente António Guterres inventou o Rosa; e mais recentemente José Sócrates apresentou-se com os azuis institucionais. As razões são as mesmas: deslocar ideologicamente o Partido Socialista da esquerda, coloca-lo no centro governamental e disputar o eleitorado centrista e conservador. Boa medida em termos de resultados eleitorais, mas com dúvidas em relação à implementação de políticas públicas (boas numas áreas, más noutras).
Curiosamente, também por razões de marketing, os clubes de futebol sofreram nos últimos anos uma transformação simbólica similar. Antigamente o Benfica só se apresentava de Vermelho ou de Branco. O Porto de Azul e o Sporting de Verde. Hoje, para que se vendam mais e mais camisolas, vemo-los a trocar de equipamento todos os anos, para cinzas, pretos, cor-de-rosa, etc. A ideia continua a ser a de conquistar eleitorado. Neste caso futebolístico.
Esta fase de clubismo partidário, que parece só afectar o Partido Socialista, diz-nos então – pelo menos – quatro coisas. (1) O PS perdeu sustento ideológico e hoje é um partido assumidamente de poder (o que em si não é uma má característica, pelo contrário, pois assume a responsabilidade de ser transformador); (2) desenvolveu uma leitura da sociedade onde entende que o Partido deve ser superior à sua militância e ao seu activismo; procurando ligar-se directamente aos cidadãos. Este processo é possível porque (3) o PS perdeu a sua definição ideológica e assume-se como um Partido catch-all sem o sustento simbólico que amarra a sua militância-base. Neste caminho foi perdendo identidade. Primeiro o Vermelho, depois o Rosa. Por outro lado, (4) esta estratégia apresenta o Partido Socialista como o Partido de todos os Portugueses, e não somente da sua clique partidária ou grupos de interesse que o procurem sustentar. O PS é hoje um Partido de Governo, e para sê-lo com mais eficácia simbólica necessitou de se afastar de um passado carregado ideologicamente. Esta dimensão, reafirma a primeira apreciação, pois um Partido com tais características liga-se directamente ao eleitorado, menosprezando os seus militantes.
Agora, é esse o rumo da política contemporânea? Ou só o do PS? A verdade é que outros partidos também fazem este percurso. O Bloco nasceu no Roxo, e os partidos da direita nunca necessitaram de sair das suas definições simbólicas, até porque eram os únicos no terreno (laranja só o PSD, azul só o CDS; enquanto que no vermelho…). Sobre o assunto acho que nem tanto ao Mar nem tanto à Terra. É verdade que os Partidos Políticos devem procurar sair da sua massa militante constituinte e procurar envolver directamente os cidadãos; mais ainda quando se apresenta em listas sem exclusividade partidária (como foi a lista Unir Lisboa). Por outro lado, não podem as forças políticas perder a sua identidade, pois se o fizerem ficam reféns dos líderes de circunstância e das modas dos tempos e correm o risco de governar sem sabor, sem Ideia, sem Ideologia. Esta é uma pecha da governação contemporânea, em especial à esquerda (e isto é visível não só em Portugal) e que necessita de ser colmatada. Como o fazer? Isso é motivo para um outro post… (e um desafio para quem ler este…)





Houvesse mais Anas


Pela primeira vez em Portugal a direcção de uma instituição de ensino foi responsabilizada por incidentes ocorridos durante praxes académicas.

Ana Sofia Damião foi obrigada a suportar uma série de humilhações durante a praxe no Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros. Depois de apresentar uma queixa à direcção e a resposta ter sido basicamente a indiferença, avançou com uma queixa-crime contra os agressores, tendo acabado por perder porque o Tribunal de Macedo de Cavaleiros achou que como não se tinha declarado "anti-praxe", deveria obeceder às leis da praxe. Para o tribunal de Macedo de Cavaleiros a Lei que conta é a da praxe, não aquela que supostamente ele deve fazer cumprir.

Felizmente a Ana Sofia não baixou os baços e avançou com uma queixa contra a Direcção do Instituto, acabando este por ser obrigado - depois de vários recursos e chegando ao Supremo Tribunal - a assumir que protegia a violência dentro de portas e que legitimava as práticas da praxe, e a arcar com a responsabilidade.

Se toda a gente que se sente agredida, humilhada, insultada pelas praxes tivesse a coragem e a persistência da Ana, isto não resistia.

Sábado, 27 de Junho de 2009

Um manifesto com prioridades

Vale a pena ler o manifesto por uma outra economia lançado hoje por dezenas de académicos, entre os quais Boaventura de Sousa Santos, André Freire, Francisco Louçã, José Castro Caldas, João Rodrigues e outros Ladrões de Bicicletas.

O debate deve ser centrado em prioridades:
só com emprego se pode reconstruir a economia

Estamos a atravessar uma das mais severas crises económicas globais de sempre. Na sua origem está uma combinação letal de desigualdades, de especulação financeira, de mercados mal regulados e de escassa capacidade política. A contracção da procura é agora geral e o que parece racional para cada agente económico privado – como seja adiar investimentos porque o futuro é incerto, ou dificultar o acesso ao crédito, porque a confiança escasseia – tende a gerar um resultado global desastroso.

É por isso imprescindível definir claramente as prioridades. Em Portugal, como aliás por toda a Europa e por todo o mundo, o combate ao desemprego tem de ser o objectivo central da política económica. Uma taxa de desemprego de 10% é o sinal de uma economia falhada, que custa a Portugal cerca de 21 mil milhões de euros por ano – a capacidade de produção que é desperdiçada, mais a despesa em custos de protecção social. Em cada ano, perde-se assim mais do que o total das despesas previstas para todas as grandes obras públicas nos próximos quinze anos. O desemprego é o problema. Esquecer esta dimensão é obscurecer o essencial e subestimar gravemente os riscos de uma crise social dramática.

A crise global exige responsabilidade a todos os que intervêm na esfera pública. Assim, respondemos a esta ameaça de deflação e de depressão propondo um vigoroso estímulo contracíclico, coordenado à escala europeia e global, que só pode partir dos poderes públicos. Recusamos qualquer política de facilidade ou qualquer repetição dos erros anteriores. É necessária uma nova política económica e financeira.



Nesse sentido, para além da intervenção reguladora no sistema financeiro, a estratégia pública mais eficaz assenta numa política orçamental que assuma o papel positivo da despesa e sobretudo do investimento, única forma de garantir que a procura é dinamizada e que os impactos sociais desfavoráveis da crise são minimizados. Os recursos públicos devem ser prioritariamente canalizados para projectos com impactos favoráveis no emprego, no ambiente e no reforço da coesão territorial e social: reabilitação do parque habitacional, expansão da utilização de energias renováveis, modernização da rede eléctrica, projectos de investimento em infra-estruturas de transporte úteis, com destaque para a rede ferroviária, investimentos na protecção social que combatam a pobreza e que promovam a melhoria dos serviços públicos essenciais como saúde, justiça e educação.

Desta forma, os recursos públicos servirão não só para contrariar a quebra conjuntural da procura privada, mas também abrirão um caminho para o futuro: melhores infra-estruturas e capacidades humanas, um território mais coeso e competitivo, capaz de suportar iniciativas inovadoras na área da produção de bens transaccionáveis.

Dizemo-lo com clareza porque sabemos que as dúvidas, pertinentes ou não, acerca de alguns grandes projectos podem ser instrumentalizadas para defender que o investimento público nunca é mais do que um fardo incomportável que irá recair sobre as gerações vindouras. Trata-se naturalmente de uma opinião contestável e que reflecte uma escolha político-ideológica que ganharia em ser assumida como tal, em vez de se apresentar como uma sobranceira visão definitiva, destinada a impor à sociedade uma noção unilateral e pretensamente científica.

Ao contrário dos que pretendem limitar as opções, e em nome do direito ao debate e à expressão do contraditório, parece-nos claro que as economias não podem sair espontaneamente da crise sem causar devastação económica e sofrimento social evitáveis e um lastro negativo de destruição das capacidades humanas, por via do desemprego e da fragmentação social. Consideramos que é precisamente em nome das gerações vindouras que temos de exigir um esforço internacional para sair da crise e desenvolver uma política de pleno emprego. Uma economia e uma sociedade estagnadas não serão, certamente, fonte de oportunidades futuras.

A pretexto dos desequilíbrios externos da economia portuguesa, dizem-nos que devemos esperar que a retoma venha de fora através de um aumento da procura dirigida às exportações. Propõe-se assim uma atitude passiva que corre o risco de se generalizar entre os governos, prolongando o colapso em curso das relações económicas internacionais, e mantendo em todo o caso a posição periférica da economia portuguesa.

Ora, é preciso não esquecer que as exportações de uns são sempre importações de outros. Por isso, temos de pensar sobre os nossos problemas no quadro europeu e global onde nos inserimos. A competitividade futura da economia portuguesa depende também da adopção, pelo menos à escala europeia, de mecanismos de correcção dos desequilíbrios comerciais sistemáticos de que temos sido vítimas.

Julgamos que não é possível neste momento enfrentar os problemas da economia portuguesa sem dar prioridade à resposta às dinâmicas recessivas de destruição de emprego. Esta intervenção, que passa pelo investimento público económica e socialmente útil, tem de se inscrever num movimento mais vasto de mudança das estruturas económicas que geraram a actual crise. Para isso, é indispensável uma nova abordagem da restrição orçamental europeia que seja contracíclica e que promova a convergência regional.

O governo português deve então exigir uma resposta muito mais coordenada por parte da União Europeia e dar mostras de disponibilidade para participar no esforço colectivo. Isto vale tanto para as políticas destinadas a debelar a crise como para o esforço de regulação dos fluxos económicos que é imprescindível para que ela não se repita. Precisamos de mais Europa e menos passividade no combate à crise.

Por isso, como cidadãos de diversas sensibilidades, apelamos à opinião pública para que seja exigente na escolha de respostas a esta recessão, para evitar que o sofrimento social se prolongue.
Manuel Brandão Alves, Economista, Professor Catedrático, ISEG; Carlos Bastien, Economista, Professor Associado, ISEG; Jorge Bateira, Economista, doutorando, Universidade de Manchester; Manuel Branco, Economista, Professor Associado, Universidade de Évora; João Castro Caldas, Engenheiro Agrónomo, Professor Catedrático, Departamento de Economia Agrária e Sociologia Rural do Instituto Superior de Agronomia; José Castro Caldas, Economista, Investigador, Centro de Estudos Sociais; Luis Francisco Carvalho, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; João Pinto e Castro, Economista e Gestor; Ana Narciso Costa, Economista, Professora Auxiliar, ISCTE-IUL; Pedro Costa, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; Artur Cristóvão, Professor Catedrático, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; Álvaro Domingues, Geógrafo, Professor Associado, Faculdade da Arquitectura da Universidade do Porto; Paulo Areosa Feio, Geógrafo, Dirigente da Administração Pública; Fátima Ferreiro, Professora Auxiliar, Departamento de Economia, ISCTE-IUL; Carlos Figueiredo, Economista; Carlos Fortuna, Sociólogo, Professor Catedrático, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; André Freire, Politólogo, Professor Auxiliar, ISCTE; João Galamba, Economista, doutorando em filosofia, FCSH-UNL; Jorge Gaspar, Geógrafo, Professor Catedrático, Universidade de Lisboa; Isabel Carvalho Guerra, Socióloga, Professora Catedrática; João Guerreiro, Economista, Professor Catedrático, Universidade do Algarve; José Manuel Henriques, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; Pedro Hespanha, Sociólogo, Professor Associado, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; João Leão, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; António Simões Lopes, Economista, Professor Catedrático, ISEG; Margarida Chagas Lopes, Economista, Professora Auxiliar, ISEG; Raul Lopes, Economista, Professor Associado, ISCTE-IUL; Francisco Louçã, Economista, Professor Catedrático, ISEG; Ricardo Paes Mamede, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; Tiago Mata, Historiador e Economista, Universidade de Amesterdão; Manuel Belo Moreira, Engenheiro Agrónomo, Professor Catedrático, Departamento de Economia Agrária e Sociologia Rural, Instituto Superior de Agronomia; Mário Murteira, Economista, Professor Emérito, ISCTE- IUL; Vitor Neves, Economista, Professor Auxiliar, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; José Penedos, Gestor; Tiago Santos Pereira, Investigador, Centro de Estudos Sociais; Adriano Pimpão, Economista, Professor Catedrático, Universidade do Algarve; Alexandre Azevedo Pinto, Economista, Investigador, Faculdade de Economia da Universidade do Porto; Margarida Proença, Economista, Professora Catedrática, Escola de Economia e Gestão, Universidade do Minho; José Reis, Economista, Professor Catedrático, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; João Rodrigues, Economista, doutorando, Universidade de Manchester; José Manuel Rolo, Economista, Investigador, Instituto de Ciências Sociais; António Romão, Economista, Professor Catedrático, ISEG-UTL; Ana Cordeiro Santos, Economista, Investigadora, Centro de Estudos Sociais; Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo, Professor Catedrático, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Carlos Santos, Economista, Professor Auxiliar, Universidade Católica Portuguesa; Pedro Nuno Santos, Economista; Mário Rui Silva, Economista, Professor Associado, Faculdade de Economia do Porto; Pedro Adão e Silva, Politólogo, ISCTE; Nuno Teles, Economista, doutorando, School of Oriental and African Studies, Universidade de Londres; João Tolda, Economista, Professor Auxiliar, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Jorge Vala, Psicólogo Social, Investigador; Mário Vale, Geógrafo, Professor Associado, Universidade de Lisboa.

Gago nos Açores é mudo




Responder a questões sobre o financiamento do Ensino Superior? Nunca meu senhor!