sábado, 10 de janeiro de 2009

Diário de Atenas (IV)



Dia 4


“Para os Bancos dinheiro, para a juventude balas. Chegou o nosso tempo”

São milhares de pessoas que se vão concentrando em frente à Universidade. Um mar de gente. Na manifestação de hoje, há estudantes universitários. E há sindicalistas. Os professores – do ensino primário, do secundário e do superior – marcam presença com faixas próprias e o sindicato da Função Pública marcou greve para hoje. Mas a maior parte da manifestação que ocupou as ruas de Atenas é gente muito mais nova: centenas, milhares de jovens de 13, 14, 15, 16 anos. Têm a mesma idade de Alexis, o colega deles que a polícia matou.


Homens a sério?

Na cabeça da manif, vai o pessoal do Politécnico. É lá que têm acontecido os principais protestos e ocupações. É considerada a escola mais radicalizada à esquerda. Foram lá as principais assembleias, com centenas de estudantes, homens e mulheres a tomar a palavra para mudar a vida. Mas hoje quem vai à frente é uma fileira só de homens. Só homens que seguem alinhados, de escuro, com paus nas mãos e marcham ordenadamente ao som de músicas de parada militar.


“A nossa raiva transborda”

Acabada a manif, a maioria das pessoas vem embora. A polícia, estrategicamente colocada por todas a ruas, cerca os manifestantes que ficaram no final, sobretudo anarquistas. Há algumas dezenas de pessoas que se protegem dentro de um mini-mercado, situado em frente a um hospital A polícia começa a deitar gás pimenta na rua e para o mercado. O dono da mercado está do lado dos manifestantes que se protegem da polícia. Os advogados que trabalham com o movimento tentam comunicar com os jovens. Do hospital, há médicos que saem para socorrer os manifestantes. A polícia detém toda a gente e distribui porrada por quem passa. Até a um dos doentes que sai do hospital. Os manifestantes cercam a carrinha da polícia onde entretanto estão os detidos.


Liberdade

As ruas transformam-se em campo de batalha. Caixotes a arder, pedras pelo ar. Junto ao fumo, o efeito do gás lacrimogéneo é atenuado. Manifestantes, médicos e advogados detidos são levados para a sede da polícia. A convocação de nova acção é imediata. Em meia hora, mobilizam-se centenas de pessoas: serão cerca de mil os que se concentram pacificamente em protesto frente à sede geral da Polícia. Mais gás lacrimogéneo obriga as pessoas a correr. A polícia aproveita para dividir a concentração. As pessoas não desistem. Ficam a cantar e a dizer palavras de ordem. Liberdade! Não arredam pé até os detidos serem libertados.


Definição de violência

Constatina Couneva continua no hospital. Hoje foi lembrada na manif. Mulher, imigrante búlgara na Grécia, empregada de limpeza, precária a part-time, Constantina tinha todas as condições para se calar. Mas não. Fundou um sindicato único nas condições mais difíceis. Num sector marcado pelo abuso, onde os patrões se aproveitam do isolamento, do trabalho clandestino, onde as agências de trabalho temporário extorquem os trabalhadores, ela e as suas companheiras tiveram a coragem da dignidade. A Confederação Sindical Grega, que é única e hegemonizada pelo PASOK (o partido socialista grego, um dos que alterna no poder) nunca apoiou a sério o sindicato. Desde que ela foi hospitalizada, depois de ter sido atacada com ácido sulfúrico em Dezembro, no regresso a casa, a confederação não teve um acto de solidariedade que se visse. Constantina só contou com o apoio empenhado dos estudantes, dos anarquistas e de algumas organizações da esquerda. Sabe-se que, por causa do ácido, já não vê de um olho e não consegue falar. Os patrões nunca toleraram que os precários pudessem ter uma voz.



Zé Soeiro

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