Ontem à noite estava no meu costumeiro zapping do "fugir à novela pirosa da TVI e aos Malucos do Riso na Sic" e apanhei, por acaso, a entrevista de Mário Soares a Martine Aubry na RTP2. Dois colossos do socialismo europeu à conversa.
Admito que ao principio me entusiasmei. Aubry é uma senhora de discurso agradável e desenvolto, daquele tipo que já não temos esperança de encontrar nas fileiras do PS português, com carisma e um certo sentido de Estado que normalmente se encontra nos grandes politicos.
Martine Aubry quase que nos faz ter esperanças nos socialistas europeus. Falou de tudo um pouco, da estupidez do choque das civilizações, da abertura e tolerância necessárias para combatê-lo, do erro da Europa fortaleza que não honra europeus e muito menos socialistas, da necessidade de uma Europa portadora duma mensagem de paz e concilização entre os povos, de uma Europa disponivel e a aberta para o diálogo cultural, de uma Europa com uma capacidade cada vez maior de intervenção no mundo e cada vez mais pautada e embrenhada na defesa dos valores civilizacionais da paz, democracia, justiça social... Falou do milagre Obama e da importância duma inflexão na politica externa norte-americana, das responsabilidades de George W. Bush e até das responsabilidades de Durão Barroso na construção da grande mentira que levou à guerra contra os povos e à justificação ilusória e ilegitima do choque das civilizações. Falou da crise, das suas consequêcias, e não se absteve de maldizer a cartilha neoliberal e as sagradas escrituras do sistema financeiro mundial. Falou dos erros do socialismo e da necessidade de actualização das respostas socialistas aos problemas de hoje. Falou sobretudo dos efeitos desastrosos que as politicas de Sarcozy têm tido em França, do aumento do desemprego, da precariedade e dos baixos salários que estrangulam os trabalhadores. Nesta altura eu já estava encantada. Mas ela continuava, dizia que o governo de Sarkozy só veio aumentar os privilégios dos ricos e que foi incapaz de fazer um investimento sério nos sectores essenciais, que nunca conseguiu ter uma visão estratégica para o desenvolvimento do país.
É mais ou menos nesta altura que Aubry fez o favor de destruir de um só golpe todas as minhas ilusões, mais precisamente quando afirma, à laia de comparação e com ar glorioso, que esteve a ver o orçamento de Sócrates para a Educação e que isso, isso sim, é ter visão estratégica sobre os sectores em que um país deve apostar...
Que lindo que é um PS na oposição (no seu país).































José Sócrates, no entanto, preferiu a fuga para a frente, lançando-se numa diatribe contra directores de jornais e televisões, com o argumento de que "quem escolhe é o povo porque em democracia o povo é quem mais ordena". Detenhamo- -nos um pouco na maravilha deste raciocínio: reparem como nele os planos do exercício do poder e do escrutínio desse exercício são intencionalmente confundidos pelo primeiro-ministro, como se a eleição de um governante servisse para aferir inocências e o voto fornecesse uma inabalável imunidade contra todas as suspeitas. É a tese Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro - se o povo vota em mim, que autoridade tem a justiça e a comunicação social para andarem para aí a apontar o dedo? Sócrates escolheu bem os seus amigos.
Partindo invariavelmente da premissa de que todas as notícias negativas que são escritas sobre a sua excelentíssima pessoa não passam de uma campanha negra - feitas as contas, já vamos em cinco: licenciatura, projectos, Freeport, apartamento e Cova da Beira -, José Sócrates foi mais longe: "Não podemos consentir que a democracia se torne o terreno propício para as campanhas negras." Reparem bem: não podemos "consentir". O que pretende então ele fazer para corrigir esse terrível defeito da nossa democracia? Pôr a justiça sob a sua nobre protecção? Acomodar o procurador-geral da República nos aposentos de São Bento? Devolver Pedro Silva Pereira à redacção da TVI?
À medida que se sente mais e mais acossado, José Sócrates está a ultrapassar todos os limites. Numa coisa estamos de acordo: ele tem vergonha da democracia portuguesa por ser "terreno propício para as campanhas negras"; eu tenho vergonha da democracia portuguesa por ter à frente dos seus destinos um homem sem o menor respeito por aquilo que são os pilares essenciais de um regime democrático. Como político e como primeiro-ministro, não faltarão qualidades a José Sócrates. Como democrata, percebe-se agora porque gosta tanto de Hugo Chávez.