48 horas depois já consigo proferir um par de análises sobre o 7 de Junho. Irei faze-lo em jeito de crónica e em posts distintos: um prelúdio, um par de ideias sobre as eleições e uma ou duas reflexões sobre o futuro.
Prelúdio: Bruxelas, 7 de Junho.
O dia 7 de Junho começou de forma fantástica. Viagem para Bruxelas em primeira (deram-me um update de ultima hora, que aceitei) e no lugar ao lado do do Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Acabei por trocá-lo com o João Marques de Almeida – não me fosse eu não me comportar– mas ir para Bruxelas com Bruxelas pintou de excentricidade a viagem e permitiu alargar a palete de cores do meu dia. Vinha vestido de vermelho, puro; e agora uns tons de azuis apresentavam-se institucionalmente.
Chegado a Bruxelas, ao Parlamento Europeu, a atmosfera era a dos grandes jogos. Centenas de jornalistas, vários estúdios de televisão e da rádio, entrevistas por todo o lado. Uma energia contagiante. Gente e mais gente, encontrões, olhares cruzados, piadas e risos. Stress. Muito stress. Mais cores apareceram. Verde, Amarelos, tons de Vermelho e de Azul, Cinzas. Todas as cores do espectro político europeu visíveis ao olho nu. A democracia vestida com o seu melhor traje. Fantástico cenário.
No Partido Socialista Europeu a noite não era a das grandes vitórias. O semblante carregado do staff não nos deixava grandes esperanças, e o vislumbre dos primeiros resultados confirmava as piores expectativas. Esperava-se perder nos grandes países e de uma maneira geral um pouco por todo o lado. Mas quando se começou a perceber o que se ia passar em França, na Alemanha, na Polónia, na Hungria a ideia inicial de fazer um bom jogo, de nos apresentarmos competitivos, de podermos – de alguma maneira – moldar a nova Europa eleita (condicionando, por exemplo, a eleição de Barroso), rapidamente desvaneceu. Agora era evitar a goleada, e procurar promover as pequenas vitórias na segunda divisão da política europeia (Grécia, Belgica, Malta, Dinamarca, Chipre, mais tarde a Roménia, etc). Afinal, os partidos membros do PES subiram em 10 dos 27 países.
Esperávamos perder, mas nunca de goleada, nunca assim. Nunca tão cedo. E perdemos Portugal. E perdemos Espanha. Caímos nos bastiões do socialismo progressista europeu que são o exemplo da governação social-democrata para essa Europa de esquerda. Desastre. Massacre. Afinal, até tínhamos uma boa equipa. Um bom programa. Os activistas. A crise provocada pela direita neo-liberal. Onde falhámos?
Tenho descrito esta situação como se fossemos, o PES, uma equipa de fórmula I. Desenhámos um carro (o Partido), colocámos-lhe um bom motor (o manifesto eleitoral), umas boas rodas (os activistas), e quando foi altura de o conduzir… não só percebemos que não tínhamos condutor como parte da nossa equipa queria o piloto dos nossos adversários. Caricato, não? Depois tomámos consciência de que este não era, afinal, um jogo de equipa – onde todos vestem e suam a mesma camisola – mas antes uma espécie de entretenimento colectivo, amador, onde os jogadores da equipa se apresentam juntos no campo dos jogos com camisetas semelhantes mas todas diferentes, na core nas tonalidades. Não conseguimos transformar o potencial das nossas individualidades numa mais-valia colectiva, e fomos um qualquer conjunto de galácticos da política, equipa cheia de vedetas, incapazes de passarmos a bola uns aos outros, mais preocupados com a gestão das diversas carreiras pessoais do que em ser competitivos no campeonato da política europeia. Aí errámos. Procurámos criar e construir uma realidade europeia onde só existe dinâmica nacional. Não há 27. Há 1+1+1+1+1+1…
A noite acabou por acabar numa boa nota: a eleição – ainda por confirmar – do Rui Tavares. Éramos muito poucos os resistentes. Com interesses distintos. Curiosamente portugueses e italianos, mais e mais cabisbaixos. Os Socialistas italianos ficaram fora do Parlamento Europeu. Julgo que devemos ter uma qualquer sina para a dramaturgia trágica. Entretanto, o ruído de fundo, ritmado, do rebentar das garrafas de champanhe marcava o tempo e recordava-nos de que a festa era num outro lado. Rui, PCP ou outro do PSD. Elegemos o Rui. Podia fechar a noite com um sorriso.
Telefonei-lhe. O Rui tinha-me ligado – estava eu em Bucareste numa acção de campanha do PES – quando decidiu aceitar o 3º lugar na lista do BE. Era um dos socialistas a quem ele queria comunicar tal decisão, disse. No mínimo queria ser um dos primeiros a congratulá-lo. Telefonei-lhe. Rimos. E prometi-lhe uma cerveja pelo Parvis de Saint-Gilles e fui dormir.
Nesse sentido, para além da intervenção reguladora no sistema financeiro, a estratégia pública mais eficaz assenta numa política orçamental que assuma o papel positivo da despesa e sobretudo do investimento, única forma de garantir que a procura é dinamizada e que os impactos sociais desfavoráveis da crise são minimizados. Os recursos públicos devem ser prioritariamente canalizados para projectos com impactos favoráveis no emprego, no ambiente e no reforço da coesão territorial e social: reabilitação do parque habitacional, expansão da utilização de energias renováveis, modernização da rede eléctrica, projectos de investimento em infra-estruturas de transporte úteis, com destaque para a rede ferroviária, investimentos na protecção social que combatam a pobreza e que promovam a melhoria dos serviços públicos essenciais como saúde, justiça e educação.
Desta forma, os recursos públicos servirão não só para contrariar a quebra conjuntural da procura privada, mas também abrirão um caminho para o futuro: melhores infra-estruturas e capacidades humanas, um território mais coeso e competitivo, capaz de suportar iniciativas inovadoras na área da produção de bens transaccionáveis.
Dizemo-lo com clareza porque sabemos que as dúvidas, pertinentes ou não, acerca de alguns grandes projectos podem ser instrumentalizadas para defender que o investimento público nunca é mais do que um fardo incomportável que irá recair sobre as gerações vindouras. Trata-se naturalmente de uma opinião contestável e que reflecte uma escolha político-ideológica que ganharia em ser assumida como tal, em vez de se apresentar como uma sobranceira visão definitiva, destinada a impor à sociedade uma noção unilateral e pretensamente científica.
Ao contrário dos que pretendem limitar as opções, e em nome do direito ao debate e à expressão do contraditório, parece-nos claro que as economias não podem sair espontaneamente da crise sem causar devastação económica e sofrimento social evitáveis e um lastro negativo de destruição das capacidades humanas, por via do desemprego e da fragmentação social. Consideramos que é precisamente em nome das gerações vindouras que temos de exigir um esforço internacional para sair da crise e desenvolver uma política de pleno emprego. Uma economia e uma sociedade estagnadas não serão, certamente, fonte de oportunidades futuras.
A pretexto dos desequilíbrios externos da economia portuguesa, dizem-nos que devemos esperar que a retoma venha de fora através de um aumento da procura dirigida às exportações. Propõe-se assim uma atitude passiva que corre o risco de se generalizar entre os governos, prolongando o colapso em curso das relações económicas internacionais, e mantendo em todo o caso a posição periférica da economia portuguesa.
Ora, é preciso não esquecer que as exportações de uns são sempre importações de outros. Por isso, temos de pensar sobre os nossos problemas no quadro europeu e global onde nos inserimos. A competitividade futura da economia portuguesa depende também da adopção, pelo menos à escala europeia, de mecanismos de correcção dos desequilíbrios comerciais sistemáticos de que temos sido vítimas.
Julgamos que não é possível neste momento enfrentar os problemas da economia portuguesa sem dar prioridade à resposta às dinâmicas recessivas de destruição de emprego. Esta intervenção, que passa pelo investimento público económica e socialmente útil, tem de se inscrever num movimento mais vasto de mudança das estruturas económicas que geraram a actual crise. Para isso, é indispensável uma nova abordagem da restrição orçamental europeia que seja contracíclica e que promova a convergência regional.
O governo português deve então exigir uma resposta muito mais coordenada por parte da União Europeia e dar mostras de disponibilidade para participar no esforço colectivo. Isto vale tanto para as políticas destinadas a debelar a crise como para o esforço de regulação dos fluxos económicos que é imprescindível para que ela não se repita. Precisamos de mais Europa e menos passividade no combate à crise.
Por isso, como cidadãos de diversas sensibilidades, apelamos à opinião pública para que seja exigente na escolha de respostas a esta recessão, para evitar que o sofrimento social se prolongue.