domingo, 25 de outubro de 2009

É assim que se instrumentalizam direitos

Depois de, na campanha para as legislativas, o PS ter levantado a bandeira do casamento entre pessoas do mesmo sexo, agora já levanta a hipótese de referendar um direito básico.



Lembro-me de ter visto uma bandeira arco-íris na sala do PS durante a noite eleitoral. Ficava bem para a TV...

sábado, 24 de outubro de 2009

Sporting constrói pavilhão e recebe imóveis da Câmara


E assim se dispensam 29mil metros quadrados de património municipal...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Nova Ministra da Educação


Será mais uma aventura?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Alguém pode avisar...


... As excelências de deputados europeus eleitos por Portugal que pertencem à direita parlamentar que nós, lá de vez em quando, sabemos as suas votações?

Não é um desenrrolar de "acontecimentos recente" o que levou a uma concentração considerável de meios de comunicação por parte da alçada do Berlusconi na Itália. E não é propriamente uma coisa que se possa simplesmente olhar para o lado.
Portanto, aquando da apresentação desta proposta aconteceu algo tocante.
Numa moção de resolução conjunta que condenava as pressões do Berlusconi aos meios de comunicação, a nossa direita lá representada votou contra.

Guardem para a posterioridade a pérola.

Segundo o que parece, houve também uns problemas esquisitos com as máquinas de votação que fizeram com que duas específicas máquinas não tivessem votado. Certamente aparecerá uma explicação (desta vez, com mais substância do que as fracas já apresentadas).

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Pare, Escute, Olhe


Trás-os-Montes, uma região esquecida. Com o plano nacional de barragens, esta histórica Linha do Tua ficará submersa em cerca de 16km. Basta 1km de submersão para acabar com a ligação ferroviária entre Mirandela e o Tua (que depois liga ao Porto). Esta linha ainda hoje serve populações que não têm carro ou não conduzem, para poderem trabalhar, ou fazer as suas compras básicas de alimentos, medicamentos, ou contactar com "a cidade". Constrói-se uma barragem, destrói-se com a vida de centenas de pessoas.
É preciso parar, escutar e olhar a realidade daquela região.


Em Agosto de 2008 tive a oportunidade de fazer a belíssima Linha do Tua [troço Tua -> Mirandela]. 3 dias depois uma carruagem caiu, e a linha encerrou.



Um filme incómodo e tocante, que mostra o Portugal que temos. A não perder!

DOC LISBOA

Segunda - 19 OUT – 18h30, CULTURGEST - Grande Auditório


Jorge Pelicano, Portugal, 2009, 80’
Dezembro de 1991. Uma decisão política encerra metade da linha ferroviária do Tua, entre Bragança e Mirandela. 15 anos depois, essa sentença acentuou as assimetrias entre o litoral e o interior de Portugal. Agora, o comboio é ameaçado por uma barragem. Pare, Escute, Olhe é uma viagem através de um Portugal esquecido, vítima de promessas políticas oportunistas.

domingo, 18 de outubro de 2009

A nova normalidade

[texto deste fim-de-semana no Semanário Económico]

O recente ciclo eleitoral terminou domingo passado. Em três meses votámos para eleger os eurodeputados portugueses, um governo (ou melhor, um conjunto de deputados à Assembleia da República) e os nossos governantes locais.

Foi um ciclo de uma intensidade política fora do normal, e que exigiu bastante a políticos e a eleitores. Foram toneladas de propaganda eleitoral, centenas de horas de tempos de antena, debates, comentários e ‘spin', milhares de metros quadrados de cartazes, ‘posters' ou ‘mupis'. A política estava no trabalho, no carro, em casa, nos cafés, nos jantares ou nos transportes públicos. Estava em todo o lado; e consequentemente desenvolvemos opiniões sobre o que se estava a passar, da política de educação ao código do trabalho ou o casamento entre pessoas do mesmo género.

Acabado o ciclo eleitoral regressamos então à normalidade. Já podemos ir ao cinema sem sermos atacados por uma qualquer juventude partidária à entrada do centro comercial, irmos ao supermercado sem termos de conhecer um par de candidatos da nossa freguesia ou conseguirmos navegar pelas ruas da cidade sem nos depararmos com a polícia a cortar a via pública devido a uma arruada.

No entanto, desenganem-se os que julgam que terminámos o ciclo político ou que teremos quatro anos de estabilidade governamental. Acabaram, de facto, as campanhas eleitorais e as eleições, mas a dimensão política do nosso quotidiano veio para ficar. E em circunstâncias muito interessantes. O facto de termos um Governo minoritário, e encaixado entre a esquerda e a direita, irá possibilitar que se discutam as opções governamentais de forma mais eficaz. O Governo, que antes pouco precisava de consensos (apesar de os procurar obter) é agora obrigado ao diálogo e à negociação. E José Sócrates já deu sinais disso e de não escolher parceiros preferenciais. E as oposições, que procuravam apenas ser anti-governo, terão agora de ser mais específicas e concretas para procurarem influenciar o governo.

Esta legislatura terá assim custos de governabilidade, mas ganhos de cidadania; isto porque os cidadãos estão hoje - depois de todas estas campanhas - mais informados e mais competentes para apreciarem criticamente as actividades do governo e das oposições. E se conseguirmos transportar esses novos conhecimentos - essas novas ferramentas - para o nosso quotidiano, podemos transformar a sociedade civil portuguesa num actor mais activo e dinâmico. Já sabíamos que os partidos políticos já não têm o monopólio da política, falta desenvolver uma sociedade civil mais interventiva e capacitada. E esse pode ser um traço muito interessante da nova normalidade.

sábado, 17 de outubro de 2009

O rapaz que sobreviveu.

Aluno acusa ministra de "tirar credibilidade à democracia"

O representante dos alunos do Liceu Camões destacou-se hoje durante as comemorações dos 100 anos da escola ao tecer duras críticas à política educativa, acusando a ministra da Educação de “tirar credibilidade à democracia”.

Pedro Feijó, delegado dos alunos no Conselho Pedagógico do Liceu Camões, foi um dos participantes da cerimónia do 100º aniversário da escola, ao lado do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, além do director da escola e do médico João Lobo Antunes, um dos antigos alunos.

Pedro Feijó, que discursou de improviso, criticou o que disse serem os “entraves que foram postos à democracia nas escolas pelas novas políticas de Educação” e “a linha de orientação errada que a Educação tomou”, acusações que não mereceram qualquer reacção da ministra no discurso que fez de seguida.

“O que o Ministério fez foi tirar credibilidade à democracia dentro e fora da escola”, sublinhou.

Entre os exemplos que considera negativos das políticas educativas do Governo cessante, o aluno apontou o novo Estatuto do Aluno, considerando que, em vez de falar dos estudantes como “os agentes construtores da escola, fala como essas pessoas iguais e padronizados, que vêm às escolas apenas para fazer os seus testes e competir por um futuro que não é garantido e que devia ser um direito”.

Outro exemplo daquilo que considerou “um dos maiores ataques à democracia” é o novo modelo de gestão das escolas, que “tira a representatividade e o poder aos estudantes e outras classes nos órgãos de gestão, dando-o a agentes exteriores à escola”.

“Por melhor que essa colaboração pudesse ser, não podemos prescindir de direitos tão fundamentais como a eleição do director da escola e a elaboração do regulamento interno”, sublinhou, motivando fortes aplausos entre a audiência.

Mas, para o jovem estudante, pior do qualquer lei, “foi a atitude do ministério”.

“Desprezou manifestações com milhares de estudantes, só por sermos menores, como se por sermos estudantes de secundário não tivéssemos uma palavra a dizer. Desprezou abaixo-assinados, incluindo um com dez mil assinaturas de estudantes, que pediram a revogação destas leis. Desprezou manifestações com várias dezenas de milhar de professores que lutavam pelos seus direitos, pelas suas escolas”, sustentou.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Hoje e Amanhã - um festim!



Grandes festarolas! Isto promete...

Sexta - Fim do Erecções 2009
Sábado - 5º aniversário do Spectrum

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Usa as escadas

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Mais-valias urbanísticas - ou o milagre da multiplicação


Este é um assunto que é preciso meter em cima da mesa.

Aqui deixo a etrevista a Pedro Bingre (quem já tinha referido em É urgente (re)pensar o território), por
Sofia Vilarigues, Jornal Quercus Ambiente

O milagre da muliplicação?
Pedro Bingre tem 33 anos, é engenheiro florestal, mestre em Planeamento Regional e Urbano, e docente do Ensino Superior. Prepara o doutoramento em ordenamento do território aplicado aos espaços florestais e conservação da biodiversidade. Considera que o ordenamento do território é um tema que, no nosso país, tem sido subestimado no seu significado económico, político e social. Que boa parte das injustiças sociais, das ineficiências económicas e atentados ambientais que afligem o nosso país resultam de más políticas de solos e urbanismo.

O que lhe despertou o interesse para a política de ordenamento do território?

No início do meu percurso académico comecei por estar interessado nos danos que o desordenamento do território provoca sobre a paisagem agro-florestal e a biodiversidade. No entanto, à medida que progredia nos estudos o meu interesse foi-se transferindo cada vez mais para a fonte dos problemas: as causas políticas, jurídicas e económicas da péssima gestão do uso do território. Estou convencido que o nosso desordenamento urbanístico é mais do que uma questão ambiental: é acima de tudo um problema de injustiça social e de ineficiência económica, resultante de políticas de solos inaceitáveis num moderno estado de Direito Democrático. A expansão urbana desordenada a que assistimos não viola só os princípios de sustentabilidade ambiental: viola também inúmeros princípios económicos e sociais consagrados na Constituição da República Portuguesa.

A propriedade do solo é fonte de poder económico e causa de desigualdade social?

Sim. O nosso quadro jurídico, nomeadamente o Código Civil, o Código Tributário e a legislação de âmbito urbanístico permitem a uma minoria de loteadores de solos urbanizáveis saquear a riqueza colectiva usando os alvarás como álibi. Esse uso da propriedade privada é um verdadeiro roubo dos bens públicos. Não o digo no sentido da famosa fórmula anarquista - "toda a propriedade é um roubo". Digo-o num sentido muito específico: o abuso dos direitos de propriedade privada do solo, por via dos alvarás de loteamento, é uma maneira de enriquecer à custa do empobrecimento alheio.
A propriedade do solo mal regulamentado pode facilmente causar ineficiências sociais porque interfere radicalmente com a vivência humana. Qualquer actividade económica que, seja uma actividade meramente intelectual como o exercício da advocacia, seja uma actividade de criação de bens materiais, como por exemplo produtos agrícolas ou industriais, requer a ocupação de um troço do território. A própria vida das pessoas requer espaço à superfície da terra. Nenhum de nós pode viver sem espaço; nem gozar a sua vida nem exercer uma profissão. Portanto, quem tiver o direito de cobrar aos demais o uso do solo tem o tremendo poder de controlar a sua vida e a sua actividade económica. Ora, no contexto geográfico e humano de hoje, qual é o solo mais procurado? O urbano e o urbanizável. Quem os controlar, controla por inerência os destinos de boa parte da economia e da sociedade. Daí a minha preocupação acerca das expansões urbanas e seus efeitos económicos, como as mais valias urbanísticas.

Poderia esclarecer melhor esses conceitos?

Sim, vem a propósito esclarecer um pouco mais detalhadamente o que está em causa nas expansões urbanas, quanto mais não seja para identificar melhor os passos problemáticos dos processos de urbanização. Dito de uma forma abreviada, uma "mais valia urbanística" é o acréscimo de valor sofrido por um terreno rústico, agrícola ou florestal, a partir do momento que dê início à urbanização. Este acréscimo de valor pode ser da ordem das centenas ou milhares por cento. Não é raro que um terreno rústico de dez mil euros por hectare passe a valer mais de um milhão por hectares com a mera emissão do alvará.
Regressando ao processo de urbanização, dizia eu que na prática se divide em três etapas: o loteamento, a infra estruturação e a edificação.
O loteamento, uma mera operação jurídico-administrativa em que um terreno agrícola é repartido em lotes privados para a construção, e certas parcelas desse terreno são reservadas para as acessibilidades e outras infra-estruturas comunitárias. É nesta fase que se desenha a malha urbana, se decide a volumetria e os usos a autorizar em cada lote. É por via do loteamento que o terratenente realiza as mais-valias urbanísticas, mesmo sem ter realizado qualquer obra física.
A infra estruturação, o processo de construir a malha urbana no que concerne a acessibilidades e infra-estruturas pública.
É neste processo que se desenham e constroem ruas, praças, avenidas, jardins, etc. É nesta fase que se determina a qualidade dos equipamentos do espaço público, desde as calçadas à iluminação.
A edificação, o processo de construção dos edifícios nos respectivos lotes, em obediência aos planos de urbanização.
A meu ver, é na fase de loteamento que surgem os abusos aos direitos de propriedade privada.

De que modo é a regulamentação da propriedade do solo - e dos alvarás de loteamento - tem impactes ao nível ambiental?

A meu ver, o aspecto mais problemático dos direitos de propriedade em Portugal resulta justamente de incluírem o direito a lotear mediante alvará. O proprietário não comete nenhuma injustiça por ser proprietário propriamente dito, mas por se tornar loteador. Quando se oferece a um particular, mediante aquele alvará, o direito a criar cidade nos seus terrenos, este ganha o poder de subordinar os destinos do território aos seus próprios calendários e ambições materiais. Como o loteador está naturalmente interessado em maximizar os seus rendimentos irá com certeza urbanizar com a máxima densidade possível onde quer que possa, e especular com os imóveis durante o máximo de tempo que conseguir.
Os resultados ambientais são evidentes: excesso de construção, urbanização em locais ecologicamente sensíveis, pulverização da malha urbana, abandono da agricultura e da floresta.

Mas não poderá ser considerado legítimo que os loteadores queiram maximizar os seus rendimentos actuando dessa forma?

Não, porque essa forma de enriquecer é obtida por uma mera manipulação política do mercado, e não por mérito económico. Repare, o valor de um terreno agrícola num mercado bem regulamentado não ultrapassa a capitalização da sua renda agrária: ou seja, situa-se por norma abaixo dos dez mil euros por hectare. Quando se valoriza à custa de um alvará de loteamento, pode facilmente ser vendido um milhão de euros ou mais. Estes 990.000€ de valorização não são propriamente lucros, nem juros: são uma renda fundiária diferencial, de origem político-administrativa, obtida à custa da discriminação dos cidadãos. O alvará que gerou as mais-valias urbanísticas oferece ao loteador uma fortuna sem mérito produtivo, enquanto praticamente obriga os compradores de habitação a endividarem-se por décadas para pagar o direito a habitar.
Imagine alguém que compra uns hectares de terreno nos arredores de Coimbra, com a intenção de cultivá-los. Compra-os, no máximo, aos tais dez mil euros por hectare. Passados uns meses consegue, sabe-se lá como, receber um alvará de loteamento que lhe permite dividir cada hectare (10000m2) em vinte lotes de 300 metros quadrados para moradias unifamiliares, desde que ofereça à autarquia 4000 metros quadrados de "área de cedência". Pois bem, no mercado imobiliário dessa cidade cada um desses lotes vale 100.000€., mesmo sem qualquer infra-estrutura. Acto contínuo, o loteador pode pôr o terreno à venda e sacar do mercado 2.000.000€ por hectare. Ou seja, a partir do momento em que recebe um alvará de loteamento, o seu terreno que valia 10 mil euros passou a valer 2 milhões de euros. É o milagre da multiplicação. Quem paga o milagre? Os hipotecados!
Diga-se de passagem que embora muitos textos de Urbanismo chamem a estes rendimentos "mais-valias urbanísticas", essa designação não é correcta porque os identifica equivocadamente com as "mais-valias" das actividades da bolsa de valores. A designação correcta para a valorização dos terrenos é "renda diferencial urbanística", cuja origem é inteiramente política e independente dos méritos económicos doo beneficiário.

De que forma é que tal afecta o ordenamento do território? Como é que poderá ser ultrapassado tal problema?

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Afecta extraordinariamente. Afecta tão extraordinariamente que em praticamente todos os países ocidentais as mais valias urbanísticas são retidas pelo Estado para evitar a especulação, o rentismo e a corrupção. Isto é, quando um terreno se valoriza por ter sido reclassificado de agrícola em urbanizável, toda ou quase toda a valorização que o terreno sofre reverte para o erário público, cabendo ao proprietário inicial receber como indemnização somente o valor agrícola original do terreno.
Em Portugal era assim até 1965, ano em que Marcelo Caetano promulgou um Decreto-Lei que privatizou os loteamentos, abrindo a porta à concessão de alvarás aos proprietários interessados em urbanizar os seus terrenos. Em minha opinião, esse decreto-lei foi a sentença de morte para o urbanismo português. Qualquer pessoa com um mínimo de perspicácia pode constatar que todos os bairros urbanisticamente decentes das nossas cidades foram construídos antes de 1965.
Porquê? Insisto: até 1965 a Administração Pública portuguesa seguia o modelo que era muito usual em praticamente toda a Europa, onde só os terrenos do Estado é que podem ser urbanizados. Por exemplo, em Inglaterra, desde 1946 até hoje, estão interditas todos os loteamentos de terrenos particulares. O mesmo na Holanda, onde nenhum terreno é urbanizado sem passar à posse do Estado. O proprietário de terrenos agrícolas, ao perdê-los, recebe como indemnização o valor agrícola inicial e não o valor especulativo que teria se pudesse urbanizá-lo ele próprio. Repare que esse "valor inicial do terreno agrícola" é um valor correspondente a basicamente todas as receitas da produção agrícola da vida do proprietário, ou seja ele não tem qualquer perda económica - pode reformar-se desde logo com todo o conforto que teria se houvesse cultivado toda a vida.
>Para nosso azar, em 1965 o Marcelo Caetano fez passar um decreto-lei onde autorizava os loteamentos dos terrenos particulares, bastando para isso que houvesse uma aprovação do então equivalente às actuais Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR). Basicamente, a partir daí, o urbanismo em Portugal passou a andar a reboque dos interesses particulares. O proprietário passou a ter possibilidade de enriquecer literalmente do dia para a noite, com alvarás de loteamento. E a enriquecer tanto mais quanto mais densa fosse a urbanização.

O que dá origem a pressões...

Tremendas! Evidentemente que neste contexto todo o proprietário quer construir. E quer construir o mais denso possível, mesmo que no seu terreno haja valores ambientais a preservar, ou mesmo que o seu terreno seja de todo inadequado para um bom desenho da malha urbana. E no entanto, pressionando a administração pública, muitos deles conseguem obter o alvará de loteamento que pretendem, mesmo para os terrenos com as localizações mais absurdas.
Naturalmente isto cria um clima de suspeição generalizada. Há urbanizações surrealistas que nunca deveriam ter sido aprovadas, mas foram-no. Porquê?
Há quem diga que são aprovadas pelos autarcas para assim poderem encher os cofres da edilidade com taxas de urbanização. Ora, essa é uma lenda urbana extraordinariamente contra-producente que tem sido veiculada pelos ambientalistas, mas que é falsa e tem servido de autêntico álibi para os loteadores.
É errado julgar que as câmaras lucram com os loteamentos. Foi provado à saciedade, em estudos feitos pelas nossas melhores universidades, que as taxas de urbanização são mais do que insuficientes para cobrir os encargos inerentes que os municípios têm de suportar à posteriori para ligar as novas urbanizações às redes de saneamento, às redes viárias, às redes eléctricas, etc. Quanto mais alvarás de loteamento uma câmara municipal concede, mais se endivida, porque as taxas de urbanização não conseguem fazer face às despesas.

Então porque têm havido essas concessões de alvarás de loteamentos?

Porque a pressão dos proprietários dos terrenos e dos loteadores é proporcional aos ganhos privados, ou seja, colossal. Nalguns casos, como alguns que têm vindo a lume e estão em tribunal, são os próprios autarcas os principais loteadores do município. Repare como quase todos os casos de corrupção noticiados na imprensa nacional tiveram urbanizações como móbil...Tornou-se um espectáculo tão habitual que um recente filme português sobre corrupção teve por tema do enredo...os alvarás de loteamento e as fortunas que eles trazem.

O que é que podia ser alterado no quadro legal?

Nós não precisamos de reinventar a roda. Bastaria, para começar, copiar nem que fosse em grosso a legislação dos países mais avançados do mundo. Poderia ser a legislação britânica, poderia ser a legislação holandesa, dinamarquesa, alemã, não faltam bons exemplos.

Em síntese, o que estabelece essa legislação?

A meu ver, seria necessário em Portugal revogar a legislação que evoluiu a partir da lei dos loteamentos de 1965. E, deveria-se adoptar uma legislação inspirada no Town and Country Planning Act, de 1946, britânico - o qual interditou toda e qualquer acção urbanizadora em terrenos particulares.
Em segundo lugar, estabelecer-se-ia um novo enquadramento jurídico às três fases de expansão urbana. A saber: o loteamento, a infra estruturação e a edificação.
O loteamento, o acto que consiste em passar um terreno de agrícola para urbano e fragmentá-lo em lote, é uma operação meramente jurídico-administrativa, seria uma empreitada 100% pública, e só passível de ser realizada em terrenos públicos. Como é que esses terrenos viriam à posse pública? Os proprietários seriam expropriados dos seus terrenos, recebendo o equivalente ao valor e à perpetuidade das culturas agrícolas que neles praticavam e o custo de construção das benfeitorias aí instaladas, adicionada por uma compensação por perdas efectivas. Ou seja, o proprietário não teria nenhuma perda económica, face à actividade agrícola que praticava, embora fosse ressarcido pela perda de uma propriedade urbanizável. Não teria em caso algum direito a ser indemnizado por ter visto goradas as suas expectativas de urbanizar o seu terreno; isto é cerne da questão. Por exemplo, na Holanda, um proprietário que tem um campo de beterrabas ao lado de Amesterdão sabe que se a cidade precisar de crescer será expropriado desse campo de beterrabas e receberá exactamente o valor de um campo de beterrabas e não o valor do loteamento. Em Portugal o que se passa é justamente o contrário. Veja-se o caso da Quinta da Marinha, no Cabo Raso de Cascais. Um plano de ordenamento do território que vigorou temporariamente concedeu aos proprietários o direito de lotear um pinhal manso que, na condição original, teria um valor agro-florestal de mil e quinhentos euros por hectare no máximo. Como esse plano de ordenamento já foi revogado e remeteu o terreno de novo para a categoria agro-florestal, o proprietário começou a exigir ao Estado uma indemnização de, se não estou em euro, cerca de um milhão e duzentos mil euros por hectare por ter visto goradas as suas expectativas. Isto não se passa em nenhum país civilizado do mundo e não há razão para que se passe em Portugal.
Passando à infra estruturação: esta consiste na construção das infra-estruturas públicas de saneamento, acessibilidades, comunicações, educação, saúde, etc. Isto deve ser obra de parceria público privada, ou melhor dizendo, uma empreitada de obras públicas. O Estado recomenda a obra e lança a concurso público a sua execução. Nada que não seja feito no resto da Europa e nada que não feito em Portugal até 1965. Em Portugal, se uma pessoa quiser comparar os efeitos da legislação antes e pós 65, compare bairros anteriores a 65, como o Bairro de Alvalade, a Praça de Londres, o Bairro do Restelo em Belém, com os Bairros pós-65, como Miraflores, Reboleira, Cacém, Odivelas. Compare Campo de Ourique com Telheiras e verá a diferença entre uma obra pré 65 e uma obra pós 65. É curioso comparar, por causa destas políticas, o metro quadrado de habitação em Berlim custa menos de metade do que custa um metro quadrado de habitação em Lisboa. Em Berlim anda à volta dos 1000 euros por metro quadrado, ao passo que em Lisboa anda à volta dos 2000 euros e acima disso. Mesmo sendo em Berlim, a maioria moradias familiares.
Quanto à edificação: esta, por sua vez, é o acto de construção dos edifícios isoladamente considerados, em cada um dos lotes. Isto deve ser uma obra 100% privada. Como é que o Estado executa essa obra? Leva a leilão os lotes vazios, cada qual já com uma volumetria definida.

Tem havido um uso abusivo da figura de PIN (Projectos de Potencial Interesse Nacional) e de utilidade pública? De que maneira tem isso afectado o ordenamento do território?

Há dois tipos de situações com os PIN, em termos de política de solos: os PIN de infra-estruturas industrias e os PIN de infra-estruturas habitacionais.
No caso dos PIN para construção habitacional, seja de turismo residencial seja hoteleiro, nós estamos basicamente a assistir à governamentalização de todas as injustiças que já se praticam ao nível dos PDMs e CCDRs na concessão de alvarás e no enriquecimento imerecido e discricionário de loteadores. De cada vez que o PIN autoriza o loteamento para turismo residencial está a distribuir mais valias por quem entende. Veja-se o caso noticiado no Público, da Quinta do Lago, onde um troço de terreno rústico que em termos agro-florestais teria um valor não superior a 5 mil euros por hectare, passou a estar cotado a um milhão de euros por hectare. É uma fortuna trazida pelo vento, "windfall gain", como dizem os ingleses, por decisão governamental.
Uma nota importante: quando aqui falo de proprietários de terrenos, o mais importante é a questão de ser loteador, um papel que pode ou não ser desempenhado pela mesma pessoa. O parasita é o loteador, não é necessariamente o proprietário, que pode ter sido enganado pelo loteador, ou o construtor ou o promotor imobiliário.

Para resumir: tudo o que estou a propor resume-se a uma coisa: o loteador devia ser o Estado. E devia lotear em função do interesse colectivo.
No que se refere aos PIN das infra-estruturas industriais, isso é de analisar caso a caso. Nas infra-estruturas industriais não há um enriquecimento imerecido. Poderá haver num ou noutro caso, pelo relaxamento das restrições ambientais, por exemplo, mas é necessário avaliar caso a caso.

Há mais algum exemplo que gostasse de apontar, no âmbito desta questão?

Vou dar um exemplo, o Alqueva. Que é também um exemplo de como neste momento, em Portugal, a maior parte do grande investimento económico que é feito é sempre capturado por grupos rentistas. Começa-se com terrenos originariamente de sequeiro a valerem um máximo de 3 mil euros por hectare. Constrói-se o Alqueva. Graças a isso o terreno passa a ter potencial de regadio e portanto a valer cerca de 8 mil euros por hectare. A contribuição autárquica não aumenta. O proprietário não paga qualquer imposto adicional pela valorização que o seu terreno sofreu. O seu terreno sofreu uma mais-valia pela realização de uma obra pública mesmo à sua berma - mas o proprietário não paga nada por essa obra, paga todo o colectivo. Finalmente, o mesmo proprietário, contente por ter ali uma albufeira, começa a pensar nas perspectivas urbanísticas e pede um projecto de interesse nacional, um PIN, para lotear esse terreno. E o terreno, qual milagre, passa a valer um milhão de euros por hectare.

No caso do novo aeroporto, como evitar a especulação urbanística desses terrenos em redor?

Justamente consagrando a posse pública das mais valias urbanísticas.

Para finalizar, há algo que gostaria de acrescentar ao que foi dito?

Na economia portuguesa, a caça de mais valias urbanísticas, ou aquilo que a teoria económica chama procuração de rendas (rent-seeking activities), tem sido o alfa e o ómega de toda a vida dos empresários e dos políticos. Sucede que as mais valias urbanísticas, que têm permitido o enriquecimento súbito de muitos cidadãos, e já agora o financiamento de aparelhos partidários, têm estado a ser pagas com empréstimos à habitação de 30 e 40 anos. O enriquecimento que se tem operado à custa das mais valias urbanísticas é um enriquecimento directamente proporcional ao endividamento de duas gerações de portugueses e inversamente proporcional ao investimento na investigação e na indústria. Tudo isto foi agravado pela gigantesca bolha imobiliária que cresce entre 1995 e 2005, inchada pela injecção de crédito fácil e de juros baixos.
Agora que os juros recomeçaram a subir e o crédito a escassear, a bolha estoirou; que faremos às centenas de milhar de habitações vazias e sobrevalorizadas? Quem pagará os custos económicos e ambientais de mantê-las? O pequeno grupo de loteadores que enriqueceram imerecidamente à custa de mais-valias urbanísticas, ou a multidão de portugueses hipotecados até à medula?


os sublinhados são de Tiago Gonçalves

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

YES!


Barack Obama é Prémio Nobel da Paz
No anúncio, o Comité norueguês de atribuição do prémio referiu "os seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos, dando ao mundo a esperança de um futuro melhor".

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O CO2 não só aquece a Terra...



Ainda há muita gente que acha que a actividade humana não está a alterar de forma drástica e, possivelmente irreversível, o equilíbrio do sistema terrestre. Nem que as toneladas de CO2 que emitimos a cada hora colocam a nossa vida em risco. Mas cada vez há mais motivos para alarme, que se acumulam a uma velocidade quase alucinante.



Jean-Pierre Gattuso, oceanógrafo, alerta para a velocidade de acidificação do oceano Ártico, muito mais elevada do que se esperava, devido às elevadas concentrações de CO2 na atmosfera. As águas mais frias conseguem absorver mais facilmente o gás do que as águas mais quentes das latitudes mais baixas. O CO2 combina-se com as moléculas de água e forma H2CO3, que é um ácido muito forte.



Assim, segundo Gattuso, o aumento acelerado da absorção de CO2 pelo oceano Ártico poderá tornar as suas águas corrosivas num espaço de 10 anos, tornando impossível a vida de seres vivos que usam conchas para se protegerem. O desaparecimento de crustáceos e moluscos coloca em risco toda a cadeia alimentar e provocando o colapso de todo um ecossistema.


Ver mais aqui.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os patos estão crescidos



Parece que fazemos anos com a República, dois até agora.

www.lisboa09.pt.to

A uma semana das Eleições Autárquicas, foi hoje lançado o site www.lisboa09.pt.to


Este site pretende comparar os programas das 4 principais forças candidatas à CML, após uma análise profunda dos mesmos, compilando-os numa Grelha Comparativa dos Programas Eleitorais, que não só permite uma leitura rápida, sectorial e sintética das propostas concretas de cada candidatura, como permite, tema a tema, uma comparação entre as várias propostas.

A Grelha consiste num documento de 21 páginas que está disponível para consulta e download no site.
Nesse site, pretende-se também dinamizar o debate sectorial dos programas. Espera-se assim lançar a discussão sobre as propostas concretas que estas 4 forças elaboraram, em diferentes temas:
  • Habitação e Revitalização Urbana
  • Mobilidade
  • Cultura
  • Educação
  • Desporto
  • Economia
  • Ambiente e Espaço Público
  • Acção Social, Saúde
  • Organização Municipal, Participação
Esperamos que tudo isto contribua para que os lisboetas conheçam melhor as propostas de cada candidatura, e também para um debate de qualidade e aprofundado sobre as políticas para Lisboa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

a ingerência da Sonaecom no Público e a asfixia democrática

Parece que o preço da uva vai mesmo subir. Bárbara Reis, actual directora do diário da Sonaecom vai passar para directora executiva do Público. JMF demitiu-se finalmente. Escrevia mal e foi o arquitecto de uma linha editorial com uma agenda política conservadora não declarada. Não vou sentir saudades mas preocupa-me o que aí vem. Uma directora que vem directamente do interior da Sonaecom tem forçosamente uma agenda política alinhada e nada me garante que o Público não continue a ser um boletim de propaganda do merceeiro mor Belmiro de Azevedo. É espantoso que em relação ao estado não haja um partido ou um opinionmaker que não revele a sua preocupação de ingerência sobre os órgãos de comunicação social, mas em relação aos privados nada dizem. A Sonaecom tem uma agenda política própria, e usa o Público como meio de projecção. Isto deveria ser uma tema discutido e investigado jornalisticamente. Alguém ainda me há de justificar o apoio que o Público deu à OPA falhada do filho pródigo de Belmiro de Azevedo sobre a PT, que muito depois de já se saber que ia falhar manteve os órgãos de comunicação social a falar do assunto para lhe salvar a face.

Lisboa sem sentido



Só pode ser para rir. Depois de meses de discussão técnica e política, Santana acha que pode manter o aeroporto em Lisboa, bastando querer. Quem diz aeroporto também diz que não a uma Terceira Travessia rodoviária sobre o Tejo. Tudo questões que acha que dependem dele.

O menino guerreiro apresenta-se com garra e demasiada arrogância nos seus novos outdoors.


É disto que Lisboa não precisa.