domingo, 28 de março de 2010

1ª Conferência de Jovens Estudantes, intervenção de Ana Bárbara

Eu queria falar-vos sobre o entrismo, porque algumas das discussões que temos nesta conferência só se percebem se conhecermos o que é o entrismo e porque é que ele tem a lógica que tem.
O entrismo é uma organização pequena que sabe que nunca será grande se não entrar dentro de uma organização grande para tentar construir-se a si própria à custa da outra organização. É a ideia de que pequenas seitas devem fazer de partidos de massa barrigas de aluguer para sobreviverem e, quando juntarem muita gente, poderão sair e tornar-se autónomos. É uma política de confusão, porque implica estar dentro de um partido com o qual, em geral, não se concorda. Porque implica ser membro de um partido mas ter como objectivo construir uma organização que combate esse partido.
É o oposto do espírito com que nasceu o Bloco. O Bloco fundou-se em torno de uma coerência. Não achamos que devíamos estar dentro do PS para combater o PS. Não achamos que devíamos ser um grupo dentro do PCP para lhes arrancar os militantes. Não: somos um partido com um programa próprio, no qual acreditamos e pelo qual nos batemos de cara lavada. Não estamos dentro de outros partidos porque só estaremos num partido em que acreditemos.
O entrismo é uma estratégia de correntes dentro do trotskismo. Os entristas defendiam que, nos países em que os estalinistas reinavam absolutos, os trotskistas deveriam juntar-se a partidos comunistas e militar dentro deles, objectivando influenciarem-nos e conduzirem-nos à esquerda que queriam. Estavam dentro dos PCs para tentar conduzi-los à linha certa. Como sabemos, tem dado um enorme resultado, já se vê.
Noutros casos, quando os partidos social-democratas eram os grandes partidos de massas de trabalhadores, os entristas defendiam que deveria militar-se no PS para o destruir: havia uma corrente em Portugal que até defendia isso, e teve gente a militar no PS (a Militant). Com os resultados fabulosos que se conhecem. No entanto, entendiam, ingenuamente, que esta táctica lhes permitiria manter uma contacto quotidiano com milhares de trabalhadores, ganhando o seu direito a participar na luta e na discussão sobre os objectivos do movimento, ao mesmo tempo que lhes dava a oportunidade indispensável de provar os seus ideais.
O problema é que o entrismo é uma prática desprezível e totalmente inconsequente.
Primeiro, uma pessoa entra num partido com o qual não concorda e que acha reformista, coisa que já de si é horrível (eu nunca o faria). Milita nesse partido que acha que é reformista e traidor (e devo dizer que me parece óbvio que o Bloco não é um deles, e afirmá-lo é ingénuo, mas que encerra indubitavelmente o maior avanço à esquerda), sujeita-se a tudo para entrar nesse partido: as astúcias e as capitulações são não somente admitidas como necessárias. Parasitismo cego, sem escrúpulos, profissional, ousaria dizer. E depois, todas as opiniões políticas são definidas a partir de como fazer uma polarização com a direcção desse partido para trazer gente do partido à corrente, ao grupo, cuja identidade é ser contra a direcção do partido, que é sempre, claro, traidora e a um passo da capitulação. Hoje o argumento pode ser um, amanhã pode ser outro. Tanto faz. Para o Ruptura, por exemplo, o Bloco capitulou quando defendeu as 36 horas de trabalho. Uma grande traição porque devia defender 35. Mas mantiveram-se no Bloco e passados dias já nem se lembravam disso. O Bloco depois capitulou porque não quis transformar a campanha do aborto numa campanha contra o Sócrates. Mas depois ganhamos o referendo e já nem se ouviu falar disso. O Bloco capitulou definitivamente porque não quis fazer um Governo com o Manuel Alegre a primeiro-ministro e com o PC, mas passadas duas semanas, o Alegre já era um “carrasco dos trabalhadores”. Tanto faz. A única coisa que conta é arranjar uma coisa qualquer para os outros capitularem, mesmo que depois isso não interesse nada.
As organizações entristas não têm uma estratégia própria. Pode ser o que seja, o que em cada momento permitir traçar uma linha definitiva entre eles, revolucionários, e os outros, reformistas. Mas essa linha varia ao sabor das decisões com as quais se pretende polemizar. E a variação é a única coisa que é definitiva.
Os entristas não têm uma linha política, uma direcção para o país, uma ideia de um caminho. Saltitam conforme lhes dá jeito com argumentos sempre dramáticos de que é hoje e aqui que se traça a linha entre os puros e os traidores.
No essencial, essa é a prática do Ruptura – e por isso é sempre tudo tão dramático, sempre à beira do momento final, mas percebe-se que amanhã será outra coisa qualquer.
É essa lógica entrista que a Ruptura/FER, da qual a maioria dos subscritores da moção B é membro, faz dentro do Bloco de Esquerda. Por isso entende o Bloco como uma mera barriga de aluguer – uma “mediação táctica”, nas palavras da Internacional do Ruptura. Estão aqui de passagem, para crescerem.
O Bloco nasceu, contudo, do espírito oposto: várias organizações a juntarem-se para fazer um novo partido, o Bloco, a maior conquista da luta social dos últimos dez anos em Portugal. Para o Ruptura, pelo contrário, o seu Partido é o Ruptura, não é o Bloco.
Nós recusamos esta visão. Para nós, o Bloco não é nenhuma mediação táctica. O Bloco é a nossa estratégia e a nossa organização. Os jovens do Bloco não são o espaço onde um outro partido pode crescer. Os jovens são o Bloco e o Bloco é o nosso partido. E esta é uma das grandes diferenças entre a moção A e a moção B.
O Bloco é uma força socialista para a luta dos trabalhadores, para a luta anti-capitalista e para a luta contra as opressões. O Bloco não é uma agremiação reformista das classes médias. O Ruptura diz do Bloco o mesmo que o PCP diz do Bloco. O Ruptura pensa do Bloco o que o PCP pensa do Bloco. As teses da LIT dizem que o Bloco é "um remake pouco original das velhas e reaccionárias utopias do reformismo europeu". (Teses congresso LIT)
Nós nunca estaremos num partido que seja um remake de utopias reaccionárias e reformistas. Somos revolucionários. Como tal, se estamos no Bloco é porque achamos que ele é um instrumento da luta socialista. Temos princípios. Por isso, ao contrário do Ruptura, não estaremos nunca numa organização que consideremos reformista e reaccionária.
Essa é a nossa diferença com o entrismo. Um movimento entrista não acredita no partido que parasita. Um movimento entrista jamais luta pelo bem do partido que parasita. Um movimento entrista serve-se do partido que parasita, objectifica-o, tenta descredibilizá-lo, tirar-lhe a militância, tirar-lhe a força, sendo cego em razão e ingénuo em objectivos. Por esse motivo, correntes como o Ruptura não objectivam o engrandecimento do Bloco de Esquerda, não objectivam a melhoria do Bloco de Esquerda, não objectivam o bem do Bloco de Esquerda.
A militância entrista é má para as pessoas, porque forma militantes que têm de fazer discursos duplos, que têm de estar sempre a dramatizar posições e a inventar polarização. A militância entrista deforma porque não junta as pessoas em torno de uma ideia política, de uma direcção para o país, mas em torno de permanentes demarcações da estratégia dos outros.
Isso deforma a militância no Bloco. O Bloco não deve ser um meio, uma forma de o Ruptura crescer, um objecto que deve ser usado. Eu recuso-me a esse papel e a construir um partido para isso.
Eu, como os restantes 101 delegados pela moção A, como as pessoas das plataformas independentes e como milhares de pessoas por esse país fora, creio no Bloco, sou do Bloco, o Bloco é o partido em que quero estar. Sei que este Bloco não é social-democrata, que este Bloco encerra uma multiplicidade de visões e opiniões necessárias a uma luta forte e concisa e sei como é o Bloco que mais afronta o Governo e as suas políticas. Sei que este Bloco quer crescer por ele e trazer a revolução ao país. Sei que é este Bloco a alternativa às políticas direitistas. É o este Bloco – socialista e sempre socialista – a voz bem timbrada de homens e mulheres que vêem os seus direitos negados, que têm más condições de vida, que são explorados por políticas neoliberais que se têm espraiado pelo país. É a voz das minorias cujos direitos têm sido negados e a voz de todos aqueles que buscam uma alternativa à esquerda.

12 comments:

Anônimo disse...

um texto digno do Louçã. espera lá, mas o Louçã não é (era) trotskista?

Anônimo disse...

ser benfiquista não implica que concordes com todas as tácticas do benfica... o benfica é mais que a soma das suas tácticas

Anônimo disse...

Tenho pena que numa conferência de jovens o debate se tenha resumido a teorias do entrismo, a ataques quase ou mesmo pessoais entre as duas moções. Parece-me que este novo modelo de organização dos jovens estudantes não vai trazer as mudanças necessárias para nos organizarmos como é necessário e vão ser repetidos os mesmos erros, porque está tudo mais preocupado em criticar.
Ando farto de vocês todos, tanto dum lado como do outro. Para a próxima debatam questões realmente importantes para os jovens estudantes e resolvam as vossas tricas na rua e à porrada, porque já não vos posso ouvir.

Anônimo disse...

Toda a gente sabe é que o bloco é um "aportuguesamento" da new lef dos EUA com as politicas de identidade.

Escrever bem também eu sei, mas vejo é muita tinta e pouco conteudo.

É isto que têm a dizer aos milhões de sem abrigo, desempregado e pobres com condições deploráveis neste país?

E propostas? Ou é só estar na ribalta mandar meia dúzia de postas de pescada e 'tá feito? Parece é que os jovens do bloco são meninos ricos que têm mania que são rebeldes e, que por serem do bloco acham-se melhores. Mas retoricas há muitas e soluções nem as vejo...

Anônimo disse...

O comentário mais pertinente é mesmo o da analogia entre o bloco e o benfica. Está muito bom. Mas como era uma analogia tão fácil nem sequer a vou propor para as provas psicotécnicas.

Anônimo disse...

E o PSR está para ficar ou de passagem? e a UDP? e a PXXI? se estão para ficar e o Bloco é o objectivo final porque é que ainda existem? porque é que fazem congressos? e têm orgãos de direcção? e continuam a captar aderentes do BE para as suas correntes? Porque é que todos os deputados da AR estão ligados a uma dessas correntes e não há nenhum "independente"? parece-me é que há mais bébés nessa barriga de aluguer...

João Curvêlo disse...

a coragem das velhas ortodoxias... que deixam comentários anónimos.

Mário Moniz disse...

Os comentários deste(s) anónimos só vêm dar razão ao texto.

Anônimo disse...

Como gostaram tanto dos comentários anónimos, aqui vai mais um: O que é o entrismo? É aquilo que a Política XXI / Fórum Manifesto faz no Bloco??? Ou isso é só oportunismo?

Anônimo disse...

Pois, não há é resposta para os comentários anónimos pois não? Não admira num blog de jovens que tem militantes das correntes "maioritárias". Sabendo que o Bloco tem 10 anos é fácil de calcular que aderiram a essas correntes depois do Bloco se ter formado. Então para quê tanta treta? Só vocês é que podem ter dupla filiação?

Anônimo disse...

Aceitando que o anonimato é um dos riscos da blogosfera...

Pergunto só e apenas: não é afinal o Bloco o verdadeiro partido da esquerda democrática? Onde centenas de militantes se unem numa só voz para defender o que hoje dizem ser os interesses dos trabalhadores, quando há 10 anos as manifestações estavam, segundo vocês, fora de moda?
Os mesmos que têm orgulho em dizer e repetir (e repetir, e repetir, e repetir...) que estão todos para o mesmo e que representam o que de mais DEMOCRÁTICO pode haver? Que é a discussão sem fim sobre tudo o que é discórdia, para poder mostrar o quão DEMOCRÁTICOS são?
Tudo mais ou menos coerente até aqui (dentro de tudo o que é incoerência por aí...)...Então porquê uma intervenção única e exclusivamente a criticar movimentos dentro do Bloco? Os mesmo que o formaram? E que o mantêm vivo?
Depreendo, assim, que são todos muito DEMOCRÁTICOS, mas que bom bom, era alguns andarem mais caladinhos...

E não deixa de ser engraçado que a autora desta intervenção considere APENAS os membros do Ruptura/FER a classe média...Que seja...E os outros? São todos os operários? Os desempregados? Os camponeses? Será?! Esses trabalhadores que o Bloco agora diz que defende...Ou os patrões com quem reúne na Autoeuropa?

Aconselho vivamente uma reflexão mais profunda...e menos ingénua...Sobre o socialismo, no geral!

Ana Bárbara disse...

onde é que eu disse que considero os membros da ruptura/fer a classe média?